Filmes por gênero

VIDAS SECAS (1963)

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Ficha Técnica

Outros Títulos: Sécheresses (França)
Barren lives (Estados Unidos)
Pais: Brasil
Gênero: Drama
Direção: Nelson Pereira dos Santos
Roteiro: Nelson Pereira dos Santos
Produção: Luiz Carlos Barreto, Herbert Richers, Danilo Trelles
Música Original: Leonardo Alencar
Fotografia: Luiz Carlos Barreto, José Rosa
Edição: Rafael Justo Valverde, Nello Melli
Efeitos Sonoros: Geraldo José
Nota: 8.5
Filme Assistido em: 2008

Elenco

Átila Iório Fabiano
Maria Ribeiro Sinhá Vitória
Orlando Macedo Soldado Amarelo
Joffre Soares Fazendeiro
Gilvan Lima Gilvan
Genivaldo Lima Genivaldo
Maria Rosa .

Prêmios

Festival Internacional de Cannes, França

Prêmio OCIC (Nelson Pereira dos Santos)

Indicações

Festival Internacional de Cannes, França

Prêmio Palma de Ouro (Nelson Pereira dos Santos)

Videoclipes

70 anos de cinema

Sinopse

Em meio à paisagem hostil do sertão nordestino, quatro pessoas e uma cadela se arrastam numa peregrinação silenciosa. O menino mais velho, exausto da caminhada sem fim, deita-se no chão, incapaz de prosseguir, o que irrita Fabiano, seu pai, que lhe  dá estocadas com a faca no intuito de fazê-lo levantar-se. Entretanto, compadecido com a situação do filho, ele o toma nos braços e o carrega.

Depois de muito caminharem, Fabiano e família encontram uma fazenda completamente abandonada. Surge a intenção de se fixarem por ali. Baleia aparece com um preá entre os dentes, causando grande alegria aos seus donos. Haverá comida. Descendo ao bebedouro dos animais, em meio à lama, Fabiano consegue água. A inesperada caça é preparada, o que garante um rápido momento de felicidade para o grupo.

Em vão, Fabiano procura por uma raposa. Apesar do fracasso da empreitada, está satisfeito. Pensa na situação da família, errante, passando fome, quando da chegada àquela fazenda. Todos estão bem agora. A fazenda, aparentemente abandonada, tem um dono que logo aparece e reclama sua posse. A solução é ficar por ali mesmo, servindo ao patrão, tomando conta do local. Ele pensa em Sinhá Vitória, sua mulher, e em seu desejo de possuir uma cama igual à de Seu Tomás da bolandeira, mas enquanto as coisas não melhoram, o importante é sobreviver.

Fabiano vai à feira comprar mantimentos, querosene e um corte de chita vermelha. Injuriado com a qualidade do querosene e com o preço da chita, resolve beber um pouco de pinga  na bodega de seu Inácio. Nisso, um soldado amarelo convida-o para um jogo de cartas. Os dois acabam perdendo, o que irrita o soldado, que provoca Fabiano quando este está de partida. A ideia do jogo havia sido desastrosa. Perdera dinheiro, não levaria para casa o prometido. Fabiano, agora, pensa em como enganar Sinhá Vitória, mas a dificuldade de engendrar um plano o atormenta.

O soldado provocador encara o vaqueiro e barra-lhe a passagem. Pisa no pé de Fabiano que, tentando contornar a situação à sua maneira, aguenta os insultos até o possível, terminando por falar mal da mãe dele.  Com o destacamento policial à sua volta, Fabiano é empurrado, humilhado publicamente e levado para a cadeia. No xadrez, pensa por que havia acontecido tudo aquilo com ele. Se não fosse Sinhá Vitória e as crianças, já teria feito uma besteira.

Naquele dia, Sinhá Vitória amanhecera brava. A noite mal dormida na cama de varas era o motivo de seu mal humor. Falara pela manhã, mais uma vez, com Fabiano sobre a dificuldade de dormir naquela cama. Havia um ano que discutia com o marido a necessidade de uma cama decente. Ao voltar para casa, Fabiano não diz que perdera todo o seu dinheiro com o jogo. Armado como vaqueiro, doma uma égua brava com o auxílio da mulher. O espetáculo grosseiro excitava o menor dos garotos, impressionado com a façanha do pai e disposto a fazer algo que também impressionasse o irmão mais velho e a cachorra Baleia.

Quando as cabras vão ao bebedouro, levadas pelo menino mais velho e por Baleia,  o pequeno toma o bode como alvo de sua ação. Sente-se altivo como o pai quando monta. No bebedouro, despenca da ribanceira sobre o animal, que o repele. Insistente, tenta se aprumar, mas é sacudido impiedosamente, praticando um involuntário salto mortal que o deixa tonto, estatelado no chão. O irmão mais velho ri sem parar do ridículo espetáculo. Fatalmente, será repreendido pelos pais. Retira-se humilhado, alimentando a raivosa certeza de que será grande, usará roupas de vaqueiro, fumará cigarros e fará coisas que deixarão Baleia e o irmão admirados.

Com a chegada do inverno, a família se reúne ao lado da fogueira para aplacar o frio causado pelo vento e pela água que agitam a paisagem fora da casa. Fabiano e Sinhá Vitória conversam enquanto seus filhos, deitados, ficam a ouvir as estórias inventadas pelo pai, de feitos que ele nunca realizara. Quando chove, dá à família a certeza de que a seca não chegará por enquanto. A chuva começa a vir em boa hora. Após a humilhação sofrida na cidade, Fabiano decide que, após a estação das chuvas e com a chegada da seca, abandonará a família e partirá para a vingança contra o soldado amarelo e demais autoridades que lhe atravessaram o caminho. No entanto, as coisas começam a melhorar e ele muda de ideia, admitindo que talvez até Sinhá Vitória possa ter a cama tão desejada.

Com a chegada do Natal, todos colocam suas melhores roupas e partem para a festa na cidade. A longa caminhada torna-se ainda mais cansativa por causa daquelas roupas e sapatos apertados. O mal-estar é geral, até que Fabiano cansa-se da situação e tira os sapatos, metendo as meias no bolso, livrando-se ainda do paletó e da gravata que o sufocava. Os demais fazem o mesmo. Voltam ao seu natural.

Chegando à cidade, vão todos lavar-se à beira de um riacho antes de se integrarem à festa. A igreja, com suas imagens nos altares, os encanta ainda mais. O pai espreme-se no meio da multidão, sentindo-se cercado de inimigos. Quando a família deixa a igreja e vai ver o carrossel, Fabiano afasta-se para beber uma pinga. Embriagando-se, vai ficando valente e desejoso de bater em alguém. Vez ou outra, interrompe suas imprecações para uma confusa reflexão. Cansado do seu próprio teatro, Fabiano deita-se no chão, faz das suas roupas um travesseiro e dorme pesadamente.

Sinhá Vitória, aflita, tem que olhar os meninos. Tomando coragem para realizar o que mais queria naquele momento, discretamente esgueira-se para uma esquina e ali mesmo urina. Em seguida, para completar o momento de satisfação, pita num cachimbo de barro pensando numa cama igual à de Seu Tomás da bolandeira.

No dia seguinte, reunida a família, todos voltam para casa. Com os pelos caídos, feridas na boca e inchaço nos beiços, Baleia se mostra tão debilitada que Fabiano se vê obrigado a sacrificá-la. Sinhá Vitória recolhe os meninos, desconfiados,  a fim de evitar-lhes a cena.

Fabiano retira para si parte do que rendem os cabritos e os bezerros. Na hora de fazer o acerto de contas com o patrão, sempre tem a sensação de que está sendo enganado. Ao longo do tempo, com a produção escassa, não consegue dinheiro e endivida-se.

Certo dia, mais uma vez, Fabiano pede à Sinhá Vitória para que faça as contas. O patrão, novamente, mostra-lhe outros números e lhe explica que os juros é que causam a diferença. Não convencido, ele insiste em dizer que há um engano nas contas, mas seu patrão lhe diz que se ele desconfia, que procure outro emprego. Submisso, pede desculpas e sai arrasado, pensando mesmo que sua mulher foi quem cometeu o engano.

Na rua, lembra-se do dia em que foi vender um porco na cidade e o fiscal da prefeitura exigiu o pagamento do imposto sobre a venda. Na ocasião, desconversou e disse que não iria mais vender o animal. Foi à outra rua negociar e, pego em flagrante, decidiu nunca mais criar porcos. Com vontade de entrar na bodega de Seu Inácio para tomar uma pinga, lembra-se da humilhação passada ali mesmo e decide voltar para casa.

Procurando uma égua fugida, Fabiano mete-se por uma vereda e tem o cabresto embaraçado na vegetação local. Facão em punho, começa a cortar as palmatórias que impedem o prosseguimento da busca. Nesse momento, depara-se com o soldado amarelo que o humilhara um ano atrás. O soldado claramente treme de medo. Fabiano, por sua vez, reconhece o desafeto antigo e pressente o perigo. No entanto, após ganhar força, o soldado lhe diz que se acha perdido. Fabiano tira o chapéu numa reverência e ensina-lhe o caminho.

Quando um bando de aves invade a região, Fabiano e Sinhá Vitória inquietam-se, pois sabem que tal episódio denuncia a chegada da seca. As aves vão roubar a água do gado e, por consequência, bois e cabras morrerão. Convencidos de que têm que deixar o local o mais rapidamente possível, ele e sua mulher iniciam os preparativos para uma nova peregrinação, uma nova fuga. A situação chega a um ponto que, dos animais, só sobrou um bezerro que foi morto para servir de comida na viagem que iniciarão no dia seguinte. Partem de madrugada, abandonando tudo como encontraram. O caminho é o do sul. Assim, a cada passo arrastado do grupo, um mundo de novas perspectivas vai sendo criado. Sinhá Vitória fala e estimula o marido. Sim, deve haver uma nova terra, cheia de oportunidades, distante do sertão a formar homens brutos e fortes como eles.

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Comentários

Baseado num livro homônimo do fabuloso escritor Graciliano Ramos, “Vidas Secas” é um excelente filme brasileiro da década de 1940. Escrito e dirigido pelo cineasta Nelson Pereira dos Santos, trata-se de uma pérola do “Cinema Novo” e do único filme nacional a ser indicado pelo British Film Institute como uma das 360 obras fundamentais em qualquer cinemateca. Sua trama gira em torno de uma família de retirantes em busca de um local onde possam viver, modesta e dignamente, longe do terror proporcionado pela terrível seca que assola certas regiões áridas do nordeste brasileiro.

O trabalho de Nelson Pereira dos Santos é formidável, tendo recebido o Prêmio OCIC do Festival Internacional de Cannes, além de ser indicado ao Palma de Ouro do mesmo Festival. Trata-se, sem dúvida, de uma verdadeira obra-prima, onde a realidade e a crueldade da história impressionam. A fotografia em preto e branco e as atuações de Átila Iório e Maria Ribeiro merecem nossos aplausos.

CAA